ATENÇÃO: NÃO QUERO DISCUTIR A GREVE DE FUNCIONÁRIOS. QUERO APENAS EXPLICAR PORQUE SOU SOLIDÁRIA À GREVE DOS ALUNOS
O fato, na verdade, não foi nenhuma surpresa. Qualquer um com um pouco de massa cerebral - coisa que parece faltar no Sr. José Serra e Sra. Sueli - sabe que enfiar um batalhão dentro de uma universidade só poderia dar merda. O que me assusta, no entanto, são os 'mamãe-sou-reaça-e-leio-veja" vomitando suas sábias opiniões sobre a crise. Não estou falando das pessoas que se dizem contra a greve porque acham que cada um tem que decidir se deve ou não aderir à greve. Esses pelo menos argumentam e, embora não concorde com os argumentos mobilizados, é sempre bom respeitar o diálogo e ver o que o outro tem a dizer. Quem me irrita, na verdade, são as pessoas que, profundas como um pires, vêm com o argumento de 'estudante tem que estudar' e 'onde já se viu estudante fazer greve? e na melhor universidade do país?'. A essas pessoas, dirijo esse post.
Tentarei ser bem didática; ainda que não recorra a desenhos, vou tentar explicar o que está acontecendo com o seu país, amigo reaça. Preste bastante atenção e tome nota, ok? Pois bem, vamos ao início de tudo, em algum momento de 2007...
Nesse ano, nosso querido governador José Serra propôs uma séria de medidas para afundar melhorar a educação pública. Como conseqüência, as universidades perderiam sua autonomia (1) financeira e (2) didático-científico-pedagógica. O que significa isso? Significa que (1) os gastos das universidades deveriam ser aprovados pelo estado (nada como mais burrocracia para sucatear o ensino, não?) e (2) nosso querido governador criou uma tal de Secretaria de Ensino Superior que, dentre outras coisas, definiria o que poderia ser pesquisado. E o que poderia ser pesquisado, eu te pergunto? Segundo os Decretos do Serra, as pesquisas operacionais deveriam ser privilegiadas em relação às pesquisas básicas. Para quem não entendeu, significa "financiar, com verba pública, o desenvolvimento tecnológico de empresas privadas, visando aumentar-lhes o lucro; em vez de pesquisar os problemas da população, caberia à universidade pesquisar os problemas das empresas "(http://brasil.indymedia.org/pt/red/2008/06/422524.shtml?comment=on).
Quem estava em uma das 3 estaduais sabe o fuá que foi. E, olha que interessante, o furdunço criado, na época, pela invasão (afinal, eram estudantes) da reitoria da USP foi, sem dúvida, fator decisivo para que o governo recuasse em algumas de suas decisões. Mas nem todas...
Ok, ok, isso foi em 2007, você me diz. E o que isso tem a ver com a greve dos estudantes de 2009? E eu te digo que uma das medidas inovadoras e pra frentex que o governo propôs, já em 2007, foi a Univesp, também conhecida como "Universidade Virtual Paulista". E que raios é isso, amigo reaça? A Univesp, segundo o governo, é uma maneira de democratizar o acesso à educação superior e sanar o défcit de licenciados que podem lecionar nas escolas públicas. A Univesp, segundo essa que vos fala, é uma ótima jogada de marketing para futuras candidaturas políticas (à presidência), além de ser o maior engana-trouxa que eu já conheço. Permita-me uma digressão para explicar minha opinião.
Por que as USP é considerada uma das melhores universidades da América Latina (ou a melhor, não sei mais)? Além de toda a infra-estrutura, tem o corpo docente formado, em sua maioria, por pesquisadores excelentes. Como conseqüência, tem muita pesquisa acontecendo na USP, né? Uma universidade, pelo menos para mim, não é uma escolinha onde as pessoas vão para ter aula. Se essa é sua idéia de universidade você tem todo o direito de achar que os alunos da USP tem que calar a boca e voltar para a sala de aula. E se essa é sua opinião, eu tenho todo o direito de te achar um idiota. O aluno de graduação de uma boa universidade tem a chance de ter aula com professores que dedicam sua vida à pesquisa; mais, tem a chance de pesquisar, desenvolver seu pensamento crítico, e, oh, pensar qual é o papel da Universidade no país. Será que é só formar gente? Ou produzir conhecimento que possa ser aplicado à sociedade? Você já ouviu falar do famoso tripé 'ensino-pesquisa-extensão'? Pois é, hoje em dia é isso que define a universidade.
Voltemos à Univesp. Qual é o papel da Univesp? Como está, a Univesp é apenas um grande escolão, pelo qual passarão cerca de 60.000 alunos que obterão um diploma com o mesmo carimbo que o seu, só que com muito menos esforço, sem envolvimento com pesquisa, sem a vivência universitária, sem espaço para debate... Não sou contra EaD, desde que ele seja usado para cursos de especialização, mas graduação NÃO DÁ! E sabe por que? Vejamos:
1. Quem dará aula nesses cursos? Até agora não houve contratações. A proposta é que os professores recebam por hora/aula. Ora, meu amigo, e a pesquisa? Não era uma Universidade? Além disso, já vejo um monte de mestrando dando essas disciplinas (e ganhando bem pouco, pq, afinal, 'é uma grande oportunidade').
2. Qual o material adotado? Apostilas. Vocês já viram como funcionam cursos a distância? Eu já. Com os problemas de direitos autorais, uma apostila é produzida 'mastigando' todo o conteúdo para o aluno. Não sei vocês, mas eu aprendi MUITO na biblioteca do meu instituto, caçando material para fazer os trabalhos de fim de curso.
3. Qual foi o investimento em infra-estrutura? Nenhum! A idéia é usar (a já bagaçada) estrutura da USP, Unesp e Unicamp.
Isso posto, podemos resumir que essas pessoas, formadas em três anos, vão engolir um conteúdo despejado em cima deles sem chance de refletir sobre o que estão aprendendo. E o que é mais bizarro: formaremos professores que se formarão sem professores!
Além disso, o argumento usado pelo governo de que temos carência de profissionais habilitados para dar aula no ensino público não procede. Tem muita, mas muita gente mesmo que larga a docência por causa da baixa remuneração e das precárias condições de trabalho. Quero ver se não apareceria professor aos montes para dar aula no estado se o salário fosse decente. Tenho amigos licenciados em universidades excelentes que hoje trabalham no comércio, em bancos, escritórios, etc., porque ganham 3 vezes mais do que ganhariam como professor no fim da carreira.
Por isso, não venham me dizer que a Univesp veio para melhorar a educação pública. O máximo que vão conseguir (e talvez seja essa a intenção) será um mercado saturado de gente formada por um curso precário e que, sem opção, acaba abaixando a cabeça e encarando a escolas públicas.
E é contra tudo isso, amigo reaça, que os alunos e professores da USP estão lutando. É contra o desperdício do SEU dinheiro, que será investido em um projeto pedagógico furado e que dará apenas a impressão de que a educação superior foi democratizada quando, no fundo, ela está apenas sendo sucateada. E todo esse processo tem sido conduzido pelo governo às portas fechadas, sem diálogo com professores e estudantes. É por isso que os alunos estão em greve. É por isso que hoje a polícia usou de uma força desnecessária para conter a manifestação.
Agora, se você acha que isso não é assunto de estudante e que estudante só tem que estudar, me dou ao direito de dizer que você é um grande bundão, que vai passar o resto da sua vida reclamando do preço alto que você paga pela educação privada dos seus filhos sem saber que, lá atrás, você teve uma chance de mudar essa situação.
E antes que perguntem: sim, já fiz um curso a distância. Sim, foi uma MERDA.
como ex-uspeana e participante de diversas greves, sugiro que para melhorar sua argumentação vc vá *pesquisar* cursos de graduação e pós stricto sensu à distância antes de falar que EAD para graduação não é possível... (dicas: Open University da Inglaterra, Universitat Oberta de Catalunya...). Entendo suas frustrações e acho que a UNIVESP talvez não esteja bem pensada, mas dizer que EAD não funciona pra gradução e pós (e pesquisa) é um argumento *muito* furado (aliás, dá um google em "e-science", talvez te seja útil tb).
ResponderExcluirCara Ana Guerrini, como ex-aluna de um curso de graduação à distância, te digo que a modalidade (que pode sim ser muito útil) não é levada à sério no país. Que bom que dá certo em outros lugares e se a intenção fosse boa, seria a primeira a apoiar a criação de uma Univesp. Sabemos, no entanto, que uma coisa está sendo enfiada guela abaixo da comunidade universitária merece desconfiança, não?
ResponderExcluirNão sou completamente EaD. Acho uma ferramenta muito útil e pode sim ser empregada com eficácia, até nos cursos de graduação. O que não dá e achar que é só botar um computador e, oba, estamos formando profissionais. Deveria haver um investimento GIGANTESCO na área, para formar tutores, construir infra-estrutura, pensar um currículo decente... Se tudo isso tivesse sido feito, talvez eu acreditasse que a coisa pudesse funcionar.
Concordo com muito do que você disse. Formar professores a distância é a coisa mais absurda que já ouvi na vida... como formar futuros professores fora da sala de aula?!?! O contato dia-a-dia com o professor, tendo oportunidade de discutir e debater os assuntos mais profundamente, é algo essencial para a formação de um bom profissional e, especialmente, de um bom professor!!
ResponderExcluirEu também acho que EaD possa funcionar, como ferramenta de apoio a cursos presencias ou no oferecimento de cursos de extensão ou especialização. Como ex-aluna de licenciatura (sou formada em Letras), não acredito que seja possível que um curso de graduação seja feito pela internet.
A questão é que todo mundo acha que é fácil dar aula, é fácil ser professor, e por isso é possível fazer licenciatura via EaD. É por isso que os cursos oferecidos pela Univesp são todos de licenciatura. A questão é: se curso a distância fosse bom e efetivo, poderia ser oferecido em todas as áreas do conhecimento. Você moraria em um prédio construído por um Eng Civil formado via internet? Eu não... então porque temos que aceitar que professores formados à distâncias serão bem capacitados para o ensino??
A Univesp é mais uma tática engana-trouxa: o governo dá ao povo o direito de estudar nas melhores universidade e o povo fica feliz, porque no final vai conseguir um diploma da USP, como se isso fosse grande coisa.
O bom em se estudar em uma universidade como a USP e a Unicamp é ter contato diário com os melhores professores e com conhecimento de ponta. À distância, isso será perdido e o tempo, já escasso, dos professores de universidades públicas, será desperdiçado.
Discordo que a formação à distância não seja possível. Existem LIMITES para essa formação, e isso é óbvio: ela só pode se dar no âmbito do conhecimento teórico. Um engenheiro civil pode perfeitamente se formar à distância, desde que ele execute seus projetos e os mostre a um professor.
ResponderExcluirUm médico pode perfeitamente estudar a teoria à distância. O que não pdoe jamais ser substituído é o seu fazer prático, o contato com o corpo e com o paciente, tanto que eles têm a residência. Tudo depende de como o curso vai ser estruturado, e a proposta da univesp contempla as sessões presenciais.
É óbvio, claro, que existe aí uma coisa muito tensa, que é a proposta de gerar professores, e pra isso um contato presencial, exatamente pra esse propósito específico, é essencial.
Mais uma coisa pra melhorar a sua argumentação, Margarida (rs): É muito divertido chamar quem é contra de reaça, mas os "reaças "nunca vão abrir mão do seu próprio ponto de vista se eles se sentirem ofendidos, todo mundo é assim. Então tente convencer os seus opositores, e não esfregar na cara deles que eles estão errados, ou toda a sua argumentação que está muito boa vai por água abaixo! =)
Tiago, valeu pelo toque, mas, sinceramente, quando cheguei em casa ontem à noite e vi a putaria que tinha ocorrido, a última coisa que eu queria era tratar nossos amigos reaças com respeito. Principalmente depois de ver um monte de comentário na net do tipo "ai, que merda, aula nas férias", ou "bando de esquerdista folgados, vai estudar", "a gente paga imposto pra esses vagabundos quebrarem tudo"... Quem sabe no futuro eu tenho mais paciência.
ResponderExcluirQto aos encontros presenciais, tenho cá minhas dúvidas do quão eficientes eles são. Minha experiência de aluna virtual (rs), me mostrou que a maioria é bem inútil. Eles são destinados, em geral, a avaliações e atividades presenciais, para garantir que é o próprio aluno que faz a prova e alguns trabalhos. Se na Univesp for assim, os 50% de carga horária que seriam presenciais serão destinados para a aplicação de provas, e não para a formação dos alunos.
Enfim, é um grande vespeiro que precisa ser muito, muito, MUITO debatido antes de implantado. E não vai ser empurrando sem discussão com os órgãos competentes que ele vai conseguir encontrar boa uma solução.
Nossa, meu. obrigado. Você tirou do meu útero tudo que eu queria dizer. Principalmente para os calouros que não entendem BOSTA do que tá acontecendo, mas já tem uma opinião formada e querem aulas.
ResponderExcluirEscrevi também sobre o ocorrido, não com tanto brilhantismo, mas sim um quê de decepcção.
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Seu puder visite! Beijo!!!